#projetocogitei

LIVE

Eu estava na minha melhor fase, o que não queria dizer muita coisa quando se comparava com o resto, mas ainda sim, era alguma coisa. Bom, eu já conseguia me suportar, eu gostava de mim, na maior parte do tempo e se odiar já não estava em nenhum lugar dos sentimentos que eu tinha por mim mesma.

Fazer o mínimo por mim era uma grande coisa.

Eu que nunca me coloquei em qualquer lugar perto das prioridades. A gente faz o que pode e o que não pode, ignora e finge que nunca foi necessário. Eu estava na minha melhor fase quando deixei de precisar da opinião de terceiros apenas para ter um lampejo de amor por mim.

Amor próprio… tive que ir atrás do meu em algum lugar escondido nos infernos da minha mente. Algum purgatório escondido no terceiro plano em baixo da massa cinzenta, no lóbulo frontal, em um poço do sistema límbico, enterrado à sete palmos em um pântano esquecido por algum deus. Faz sentido dizer que eu o enterrei lá, na casa do caralho, na merda do meu cérebro. Eu entrei na minha melhor fase quando consegui sorrir pro espelho.

Parece tão pouco, quando se coloca assim, na palma da mão, quando se tenta racionalizar, quando se esquece do passado doloroso. Parece pouco mesmo, se afastar de tudo apenas para se aproximar de si. Bom, eu já olhei meu ossos como grades de uma prisão orgânica, e a mente como um carcereiro que não dorme nunca, eu me afastei de tudo apenas para olhar para mim por mais de alguns segundos sem sentir raiva.

Fazer o mínimo já é grande. O resto é o olhar dos outros que não importa, na realidade.

O olhar que dura alguns segundos e apenas enxerga a carne e esquece da fusão nuclear de sentimentos correndo por baixo da pele e explodindo em trilhões de partículas no cérebro, contaminando tudo. A imagem, no final da contas, importa. Viver sobre esses preceitos nos quebra, meu amor próprio foi atropelado, em uma rodovia, jogado no meio fio, quando eu não olhei para o que realmente importava.

Mas eu estou em minha melhor fase, meus ossos estão fortes. O que quer dizer muita coisa quando se compara com o resto, quando se olha para as lembranças, o passado serve de comparativo, mas eu não sou apenas meus machucados, nem meus traumas. Me sento na cama pela manhã, tomada por uma boa sensação, ainda que eu não sinta essa alegria o tempo todo, eu aproveito, toda vez que ela vem. Na minha melhor fase, eu cato os bons momentos como pedras preciosas jogadas na merda, dinheiro achado na sarjeta.

Em minha melhor fase, pensei em cuidar de mim, como um bebê que chega agora neste mundo, eu ainda não sei de tudo, minha visão é turva, meus sentidos aos poucos se aprimoram, eu seguro em minha própria mão para que eu não caia, em meus primeiros passos, meus futuros passos. Fazer o mínimo é gigante.

Eu não quero produzir apenas quando eu estou mal. Quando estou deprimida, para baixo, em crise, prestes a arrancar os cabelos, a cortar a pele apenas para sentir algo.

Como se talento, criação e sofrimento fossem a mesma coisa.

Talvez a arte seja uma forma de se fazer ouvido, de traduzir as inquietações e o cérebro que se contorce, para o papel. Verdade é que Van Gogh não era talentoso porque cortou a porra da orelha fora e depressão e transtornos mentais não ajudam tanto na arte como se diz por aí.

Honestamente, quando menos produzi foi quando estive pior. É difícil criar uma obra de arte estando na cama, talvez Frida Kahlo tenha conseguido, mas honestamente, eu não estou nesse nível ainda.

As pessoas não sabem do que falam. As pessoas romantizam cada coisa…

Eu não quero acreditar que escrevo bem apenas quando quero morrer, e a arte seja um balde onde vomito tudo aquilo que não me faz bem, a privada do banheiro da balada onde você coloca pra fora todo o exagero do resto da noite, sem pensar, sem refletir, sem criar por querer fazer algo que valha a pena.

Bom, eu já passei dessa fase. Não quero arrancar os cabelos, ou morrer, ou sequer ficar na cama. Não quero perpetuar a ideia de um comichão no espírito pelo bem maior.  Não existe bem maior na doença. A arte está do lado oposto.

A verdade é que Van Gogh criou coisas incríveis apesar de seus demônios, não por causa deles, não vamos dar tanto crédito assim para a dor. Quando estive internada, meu psiquiatra me falou para canalizar essa dor em algo criativo, algo produtivo, e isso me ajudou, é verdade, mas não é esse motivo pelo qual eu estou aqui ainda.

Esse não é o motivo pelo qual escrevo.

As ideias não brotam da terra infértil que é a depressão, as ideias lá, costumam morrer, antes mesmo de suas raízes se espalharem por debaixo da terra. Criar tem algo como derramar parte de nós em algo tangível, palpável, imortalizado no texto, na pintura, na música. Transferir-se para algo material, até que o outro possa olhar e então não é mais nosso, e há uma beleza nisso.

Acredito nessa beleza, acredito nesse processo, lento, que cozinha na mente até pingar no papel. Todo o resto é besteira.

Todo o resto é a orelha de Van Gogh que foi cortada como um sacrifício para algum demônio da arte. E aqui, eu reviro os olhos, aqui eu saio do recinto. Eu não quero me sacrificar mais, eu já tentei e só ganhei uma internação e acompanhamento psiquiátrico.

A arte é mais que isso. Eu quero ser mais que isso, ainda que meus textos e histórias não sejam felizes, ainda que minha mente crie as piores histórias, ela está em paz e é por isso, que as histórias transfiguraram-se em palavras num texto.

você não encontra um culpado, sabe?
é só… como as coisas se tornam. elas são complexas. são vários fatores embolados, que rolam pela história e desengata nessa merda toda.
existem os culpados de sempre, mas no fim:
eles são tão abstratos, não é? quem são eles?
quem são os vilões? e nós sequer somos mocinhos?
não.
mas eu posso te dizer isso, talvez sejamos vítimas.
e não há nenhum conforto nisso apenas a certeza dolorosa do que se esvai por entre nossos dedos.
nós somos corpos com hemorragia interna, descoberta tarde demais
a gente não sente até não conseguir sequer respirar.
daí você quer avisar as pessoas que elas estão sangrando por dentro
mas elas irão ignorar até que a primeira vertigem lhes acometa
e você vai poder culpá-las? ora, toda hemorragia interna é um conceito abstrato…
até não ser mais.
algo se perde na linguagem, na comunicação, não há união, mas desesperos individualizados.
a verdade é que eu cansei de encontrar o culpado. eu só quero cauterizar a porra da ferida.
alguma coisa precisa mudar, talvez seja mais micro do que qualquer coisa.
talvez a dor seja bem aqui dentro, talvez a inércia contribua um pouco…
é só que… porra, estamos tão cansados.
estou falando de um pequeno abcesso no fundo da garganta, do dente inflamado
a infecção não tratada que só cresce e se espalha
estou falando de negligência
porra, eu estou falando de gente morrendo!
estou falando de um sistema todo se quebrando: de uma falência múltipla dos órgãos.
estou falando desse abcesso enorme na boca do estômago, dessa carne podre.
estou falando de radicalismo.
e a gente já passou do momento de ter medo dessa palavra.
da insurgência, da desobediência… eu não quero ter medo de um caos organizado.
estou falando de arrancar pela raiz, cortar o membro gangrenado.
é isso ou o sangue continua a jorrar.
essa merda toda não é de hoje, é só que agora a infecção desceu da garganta, pela laringe, chegou no estômago, pulmões e fígado. aí, meu bem, aí já era.
a verdade é que estamos na porra da uti e algum carniceiro filho da puta quer desligar os aparelhos, vender nossos órgãos, furar a fila do transplante.
a metáfora ainda persiste, mas não se engane, gente morrer transborda dela.
a metáfora é só um jeito melhor de dizer que estamos fodidos,
um jeito mais bonito, mais palatável.
é só para gente não esquecer que tumores também crescem em silêncio.
bom, parece que o cirurgião chefe desse hospital esqueceu um bisturi em nosso estômago.
agora é tentar não morrer.
agora é lutar por justiça.
justiça…
justiça é um conceito abstrato demais pra gente entender. e só uma forma de dizer que tínhamos que ter o que é nosso por direito. que é nossa obrigação ter!
que é nossa obrigação viver bem.
que essa chaga não deveria continuar crescendo.
que nossas vidas estão em risco, e tem gente por um fio.
talvez aqui as metáforas acabem. um poema não pode seguir por muito tempo.
nem tudo é poesia, isso aqui é só desgraça mesmo.
cortes na aposentadoria não é poesia;
gente preta e favelada morrendo não é poesia;
universidades fechadas não é poesia;
desistir de lutar contra o trabalho escravo não é poesia;
feminicídio não é poesia;
a sangria não para. é interno, mas mata.

um corpo fechado, encostado na parede
eu brinco com meus cabelos
todas as vezes que não sei o que dizer
retraída na cadeira do bar
mergulhada em mais um copo de cerveja
na voragem do momento
eu desvio meus olhos castanhos
um corpo fechado espantando possibilidades
uma velha cantiga de menina ecoa
no cérebro:
quem eu sou agora?
e o que você consegue ver?
na tez eu enterro vontades
embaixo das cicatrizes das rejeições passadas
um corpo fechado, rígido na cadeira
para não dizer o que quer, mais um gole na cerveja
para gritar e queimar em cada segundo do presente
a chama acesa em meu peito
junto do cigarro, se evapora a espontaneidade
olhos castanhos e a perna cruzada
timidez definitivamente não é a palavra
um corpo fechado não parece querer nada
na voragem da insegurança
meus dedos batem na borda do copo
minha boca sorri engolindo palavras
e a distância cada vez aumenta
um corpo fechado, os pés cansados
os braços não se estendem
para quem está do outro lado.
disfarça costume com mais um trago
e queima a cachaça, boca adentro
as horas correm me deixando para trás
quando vou dizer o que eu quero
já passou o momento.

Passei esses dias na cama, e você já sabe o motivo;
fumei uns dois maços por dia, e
bebi um vinho velho que estava na geladeira
comi mal, não bebi água
vi vídeos inúteis no youtube e ignorei ligações
no vácuo de mim mesma,
no vazio gigantesco de meu universo,
retornei à gênese dos planetas
sendo compostos pelo pó das estrelas.
Não há luz emanando de mim,
apenas um resquício da radiação
de uma explosão cósmica, vinda direto
do universo.

Deitada na cama,
perdendo toda noção de gravidade em mim
deixando os pensamentos flutuarem para longe:
eu sou pó das estrelas, e existe um buraco negro, em mim.
Sugando toda luz ao seu redor, a leve luz que viaja pelo espaço
e denso, destrói tudo que encontra, sendo visível justamente por não ser,
sendo incrivelmente belo a distância
a incrível trágica beleza, de tudo que simboliza um fim.

Me desfiz em poesia.

Me refaço em antimatéria.
Me refaço em explosões atômicas
em cada esquina.

Não nasci para rimar.

Nessa hora, o cérebro muda sua química
e abaixa a taxa de serotonina,
vitamina D e endorfina.
Brutalmente, o cérebro se contorce
feito um bicho vivo na panela fervente.
e minha pele é uma roupa apertada
que eu me vejo obrigada a usar,
desconfortável demais para me mover,
justa demais para respirar.

De uma explosão cósmica,
eu sou pó das estrelas.
Me refaço agora, apenas para desfazer no final,
explodir dentro de mim mesma,
uma pequena prova viva da teoria do Caos:
um sistema dinâmico e complexo
instável na evolução temporal.

Tudo se desfaz…

Minhas inseguranças se entalam na garganta,
enquanto grito, tentando recuperar de volta minha autoestima
essa coisa de amar-se por completo é tão difícil
e agora qualquer suspiro é bem vindo.
Quero recuperar o fôlego,
o hoje é só mais uma volta que a Terra deu sem si mesma
quero fechar os olhos, descansar as retinas.
Um último suspiro antes da colisão final
na matéria mais densa, localizada em meu centro
nenhum som se propaga no vácuo,
de encontro ao meu buraco negro,
eu flutuo em meu espaço.

Lembro que sempre tive uma baixa estima de mim mesma. Veio desde pequena, esse sentimento de não-o-suficiente. Minha memória mais viva disso é ter chorado no banheiro da escola, na sexta série. A sala de aula toda gritou em uníssono meu apelido e eu não aguentei. Me vi quebrando em milhares de pedacinhos e os arrastei até o banheiro, onde eu chorei e me perguntei, pela primeira vez, se eu não era bonita o suficiente. Eu certamente não era igual as outras garotas, bonitinhas, em seus corpos magros, cabelo liso e boa personalidade. Eu era quieta, não sabia me portar, não sabia fazer amigos, não sabia dizer a coisa certa. Eu e minha cara séria, meu jeito aéreo, desajeitado.

Não melhorou muito nos anos seguintes quando eu notara que todas as garotas já tinham beijado, menos eu. Lembro de querer, mas ter medo de rirem da minha cara, de algum menino rir da minha cara por considerar um beijo dele. Lembro que um deles riu, lembro que eu chorei olhando no espelho do quarto. Eu era adolescente, e adolescente geralmente sente essas coisas, esse desalinhamento com o resto do mundo, mas eu já era precoce nesse negócio de sentir e eu sentia que não havia lugar para mim, nem entre aquelas que nem lugar tinham.

Enquanto a de outras garotas queimavam, minha confiança era um vela frágil, resistindo a um terrível vendaval. Ela fraquejava, solitária, em algum canto de minha mente, falhando em esquentar o quarto, meu cérebro.

Na faculdade, pude notar que minha personalidade ficou mais forte, não muito, mas eu já não me sentia tão fraca, não me questionava sobre meu valor diante do espelho. Jurei que iria experimentar de tudo, viver de tudo, eu me achei bonita e lembro de ter pensado que eu poderia tocar, pela primeira vez, esse mar que tanto conseguiu mergulhar, enquanto eu não saía da praia.

Minha confiança, queimou um pouco mais forte, clareou o quarto, esquentou meu corpo, meu cérebro. Eu gostei de mim, até ter adoecido.

E então, o quarto ficou no mais completo breu.

Enquanto meu corpo emagrecia pela falta de apetite e eu recebia esses elogios de como eu estava mais magra e bonita, eu me sentia podre por dentro. A vela que flamejava em meu quarto não mais queimava, sua fumaça serpenteava o ar, procurando uma saída. O cheiro de parafina irradiava até meu olfato e eu me senti triste.

Já no crepúsculo da juventude, quase sendo mulher, eu voltei a me comparar com os outros, seus corpos e desenvoltura. A confiança que funcionava quase como um imã, para que todos os olhassem, me faltava. Eu tinha dificuldades nos bastidores, olhando as personagens principais tomarem conta dos holofotes. Meu corpo deixou de ser o problema, talvez o problema fosse todo o resto e a palavra beleza era um conceito que eu não mais conhecia, e eu confundi desejo com amor, admiração. Mas o desejo se dissipa, evapora, queima, e os velhos vazios só fazem aumentar. Mesmo quando melhorei e o corpo mudou. Entendi os elogios como uma forma de quebrar o silêncio e os carinhos como forma de matar o tédio e eu juro ter tentado gostar de mim como eu queria que os outros gostassem.

Minha vela solitária tornou a se acender, mas tímida, corria sempre o risco de apagar. Meu vendaval  era mais forte que seu calor e as janelas estavam completamente abertas. Minha confiança era tão frágil quanto meu ego, sempre faminto. Minha beleza tão derradeira quanto uma noite qualquer e minha pele carregava essas inseguranças que quase saiam dos poros e, gotejavam, deixando um rastro onde quer que eu fosse.

A única coisa que sempre me senti orgulho de fazer foi escrever, estava cansada de lutar contra meu rosto e corpo, eu queria ser lida, minha voz seria o suficiente, o resto era consequência. Por isso o desejo se tornou tão banal para mim, se eu era bonita, não importava tanto, eu apenas queria ser lida, e eu conseguia queimar toda vez que escrevia, minhas histórias são minhas cinzas, que flamejaram pelas madrugadas, em uma vela solitária que conseguiu resistir a mim mesma.

Aqui estamos nós dois
deitamos em uma cama desconfortável
feita de pregos e fantasmas do passado
os erros se arrastam pelo chão gelado
como correntes que se sentem presas
em corpos cheios de pecados.
Deitados de frente para o outro
nos enxergamos pela primeira vez
e nos conhecemos depois de tantos anos
como se antes, eu apenas soubesse teu nome
a cor dos teus olhos e sobre você,
apenas alguns fatos.
A visão é triste, eu confesso
você é um espelho dos anos deixados para trás
quando o amor era o analgésico de um sintoma
de uma doença mais grave
que eu nunca poderia confessar.
(Tudo tem que ser pelas razões certas, até amar.)
Estou quase envergonhada pela melhora que tive
pelas crises que ficaram para trás
enquanto você me diz que está parado em 2017
usando a mesma camiseta velha da culpa
e uma postura que não te serve mais.
Eu estive errada, é verdade
enxerguei suas rachaduras como quem encontra
alguém familiar em uma multidão
e tentei lhe curar, usando como um remédio
minha própria vitalidade.
Pensei em te ligar no mês passado
vi algo na TV e me lembrei de você
e de uma piada nossa que hoje não tem mais graça
lembro de ter ficado preocupada
e na realidade, não posso fazer nada
se meus amores do passado ainda ficam costurados
em algum lugar do cérebro como panos remendados
Pensei em saber como você tava, ainda que eu já soubesse
a resposta. E então haveria um silêncio na linha
porque eu não saberia mais o que dizer
porque aqui estamos nós dois
e enxergando a verdade, ninguém gosta do que vê:
você se lembra que está empacado
e eu me lembro dos erros do passado
e me pergunto se eu já fui algo além de uma distração
de suas próprias desgraças para você.
A tristeza ronda a cama, desconfortável
como uma cobra azulada, da cor dos seus olhos
opacos.
Essa amizade já estava fadada ao fracasso
quando eu senti o primeira sinal de pena, rondando a garganta
e você quase sente raiva, por eu não ter ficado.
(E os olhos se encaram, raivosos
e as retinas inutilmente, batalham.)
Deitados em uma cama feita de arrependimentos
eu lembro que quis curar o incurável
mas os céus seguem caminhando bem acima de nós
e eu finjo não estar desconfortável
quando acendo mais um cigarro
cujo o gosto é demasiado amargo.
Você me conta que agora está internado
que gosta de estar rodeado de pessoas piores que você
eu digo que estou estudando e escrevendo finalmente
aquele livro que nunca começava a ser escrito
você atesta o óbvio “estamos em fases diferentes”
eu não quero soar decepcionada
afinal você não me deve mais nada,
mas eu não consigo evitar de estar totalmente mudada
enquanto você permanece dormente.  
Aqui estamos nós dois
deitamos em uma cama desconfortável
feita de pregos e fantasmas do passado
os erros se arrastam pelo chão gelado
como correntes que se sentem presas
em corpos cheios de pecados.
Mas eu já não me visto com as velhas roupas
e a culpa não me serve mais
e meus olhos passeiam por meu corpo
e eu quase te digo que eu ando em paz
você deveria fazer o mesmo
(Certas coisas ficam só com a gente).
Agora me levanto cansada
o amor agora tem outro significado
algo de leveza e olhares gentis
meu bem,
em certas camas nos deitamos sozinhos
seguimos agora em caminhos distintos
e se servir de algum consolo agora
escrito em algum lugar distante da memória
seu nome aqui jaz.

Chego tarde da noite em casa, as luzes do meu prédio já estão quase todas apagadas, indicando que a maioria já foi dormir. Do portão do condomínio, consigo ver minha janela, com as luzes igualmente apagadas.

Ao fim do estacionamento, que está localizado no meio de dois prédios, existe um parquinho que está aí desde que me mudei para cá. Ele já é bem antigo, e as crianças não brincam nele mais. Suas cores amarelo e vermelha estão opacas e em vários cantos pode-se ver o ferrugem tomando conta. Um dos balanços está quebrado e pequeno escorregador segue por um fio. Eu me dirijo até ele, quando sinto que não quero entrar em casa. Quando sinto que não quero sentir o cheiro do meu espaço, e os móveis dispostos de certa forma. A casa vazia, as paredes sujas. Meu cheiro no meu quarto e a minha cama, que me espera para deitar.

Sento-me em um dos balaços que pode quebrar a qualquer momento, ainda mais com o peso de uma mulher adulta, mas dou de ombros. Às vezes eu tenho pavor de ficar sozinha, pavor de olhar minha casa e sentir que há espaço suficiente para pensar. Tenho pavor de dormir, por isso preciso de auxilio de um remédio. Fechar os olhos, com a cabeça deitada no travesseiro, faz com que lembranças inundem meu cérebro. De olhos fechados tudo parece mais intenso. As lamentações, o peso dos dias, minhas saudades. Eu continuo olhando para o espaço vazio ao meu lado. Eu não funciono bem sozinha. A solidão sempre grita alto demais para mim, não importa o quanto eu tape os ouvidos. Sentada no balanço, eu acendo um cigarro enquanto eu olho para a lua tão cheia e amarela, por entre as árvores. Eu penso que eu não quero subir as escadas. Sentada ali, me sinto confortável balançando, levemente, para frente e para trás.

Eu sou cheia de medos e inseguranças que quase se sobressaem na pele. Nesses momentos, sem ninguém a minha volta, eu assumo que sou frágil. Uma vez me disseram que eu não pareço insegura. Talvez pela forma que converso, talvez pela forma que me porto. Talvez seja as últimas fotos postadas nas rede sociais. Tudo para fingir bem. Me esconder bem. Tudo para não estar sozinha, sentada no velho parquinho do prédio.

Meu cigarro queima rápido demais e não demora a eu jogar a bituca no lixo. A vontade é acender outro. Eu estou fumando demais. Vivo sobre a ajuda de coisas externas. Antidepressivos, controladores de humor, indutores de sono. Cigarro para acordar, depois do café. Cigarro para pensar. Um calmante se eu tiver um crise, cigarros também para aguentar crises. Sexo se estiver me sentindo sozinha. Talvez uma balada. Eu não me basto. Café para acordar e curar a ressaca. Álcool para me divertir, talvez outras drogas, dependendo do tamanho do estrago. Tudo para tentar possuir por mais tempo uma felicidade que nunca foi minha por direito. Terceirizando os serviços que eu deveria fazer por mim mesma.

Tudo que vai contra ao que aprendi na terapia.

Me balanço um pouco mais forte, e o rangido das correntes começa a ecoar por todo o estacionamento. Agora, consigo sentir o vento contra meu rosto e meus cabelos esvoaçarem contra o impacto. Eu queria estar confortável dentro de mim, mas me sinto apertada dentro dessa pele que parece mais uma roupa justa demais. Não é questão de chorar mais, é uma questão de um entorpecimento a longo prazo. Agora estou indo mais rápido, eu quase me sinto tranquila. Quase não penso em mais nada. Quase… Agarrando essa frágil paz pelas mãos.

Naquele sábado eu havia ido para uma balada sozinha pela primeira vez. Verdade seja dita, eu só não queria voltar pra casa, pegar o metrô e olhar pela mesma paisagem e notar aquele sentimento de vazio, feito vespas caminhando em meu estômago, com suas patinhas leves e seus ferrões afiados. Fui sozinha, a vontade era só dançar, ouvir alguma música e dançar até que o corpo todo estivesse suado e eu pudesse de alguma forma me exorcizar na pista de dança.

Já cheguei e comprei uma cerveja, só para não ficar de mãos vazias, já que eu não tinha com quem conversar, se bem que é fácil puxar conversa fiada. Só é cansativo se forçar a isso. Querer parecer que você está fazendo alguma coisa: conversando, beijando, fumando, bebendo. Beber e fumar só trazem malefícios a longo prazo. Dá pra lidar com isso, eu consigo aguentar as consequências. Forçar-se a socializar por outro lado…

Fui para a pista de dança e já tocava uma artista indie de Pernambuco que eu adoro, misturando um eletrônico com uma espécie de sofrência que eu juro, faz todo o sentido ouvir assim, na solidão. Solidão pura, quando você é o único ser em um local que não está com ninguém. Dancei! Dancei por duas horas seguidas misturando cerveja e gin tônica. Saindo, por vezes para o fumódromo e trocando algumas palavras com algumas pessoas, nada interessante. Era algo como piadas sobre o público jovem ou alguém me perguntar meu signo embora eu já esteja na idade de que signo não me importa, mas eu respondo: peixes, ascendente em gêmeos, lua em áries e meu vênus é maravilhoso!!! Áries também. Ai cara eu odeio pessoas de câncer, blá blá blá. Me dou muuuito bem com pessoas de leão, etc.

A cerveja rapidamente ficou quente, e o gelo da gin tônica derretou no copo e tornou o drink aguado. Logo fiquei entediada, em algumas duas horas descobri que não sou uma dessas pessoas que vão em balada sozinhas. Talvez eu não seja uma dessas pessoas que conseguem ir com calma em uma coisa de cada vez, ou esperar a coisa ficar melhor daqui trinta, sessenta, oitenta minutos. Talvez eu apenas não consiga esperar a música ruim do set passar e o próximo DJ ser anunciado. Eu me entedio rápido, eu fico de saco cheio rápido, eu só perdi a paciência.

Talvez, só talvez, essas coisas meio triviais ou têm que ser boas ou não fazem sentido. Eu perco a vontade, o tesão. Falando em tesão… no meio da madrugada resolvi mandar mensagem para um desses caras na lista do whatsapp, gente que eu sei que faria o mesmo comigo, que talvez eu não tenha sentido essa conexão profunda, que talvez me salvassem dali, ou me oferecesse algo melhor pelas próximas horas.

Joguei um verde, disse que a balada estava ruim, mas cara, é caro ir daqui até minha casa de uber, acho que vou ficar aqui nessa tortura pelas próximas horas. O cara pergunta quanto daria um uber e eu digo: é caro. Faço um drama, mas me mantenho engraçada, reclamo um pouco do lugar, mas elogio o som. É só que aqui só tem criança. Ele não demora a oferecer para pagar um uber da balada até sua casa: você pode dormir aqui, se quiser… Mas eu não finjo dúvidas, eu já aceito.  

Não é cansativo, essa insatisfação crônica? Esse vespeiro em algum canto do cérebro que te faz querer pular na próxima cama, usar a primeira droga, se recusar a largar a festa? Eu que o diga…

Chego no prédio e subo o elevador. No caminho, andares acima, tento retocar o batom no espelho e arrumo meus cabelos e me pergunto se estou bonita. Sabe, eu tenho pensado nisso esses dias, na beleza e eu não ando muito feliz comigo, mas eu juro tentar deixar isso em casa, pra ninguém conseguir farejar por aí.

Ele me espera na porta do elevador, sorrindo. Camiseta velha e samba canção. Me dá um abraço apertado, elogia meu cheiro e abre a porta de sua casa para eu entrar.

Sentamos no sofá, enquanto ele me oferece uma cerveja e eu retiro os sapatos que agora me incomodam. Eu o encaro alguns segundos, há um sorriso no canto de seus lábios, talvez esteja com o ego lá em cima: olha só a surpresa dessa madrugada de sexta-feira! Talvez esteja feliz em me ver. Seu sorriso convencido me irrita um pouco, mas eu juro deixar isso pra lá. Não quero analisar demais isso aqui e logo começamos a conversar sobre francamente qualquer coisa, a conversa não é muito profunda e eu me peguei prestando mais atenção na música meio brega que ele colocou pra tocar no spotify. Eu não quero soar escrota, é só… Estou tentando praticar essa coisa nova, de não colocar importância em tudo.

O enxame no meu cérebro começa a zunir novamente. Sinto picadas em meu crânio e algo me diz que o velho tédio está voltando, voltando a formigar no corpo e me fazer duvidar se isso era uma boa ideia, talvez não. Provavelmente eu não voltarei me sentindo muito feliz amanhã.

Mas agora ele diz que está com sono, quer ir pra cama. Eu aceito, e não acharia ruim se apenas dormissemos, talvez fosse até melhor. Talvez fosse mais sábio, mais maduro, menos covarde. Só deitar e dormir, sem transar apenas para matar alguma coisa que segue se movimentando pelo meu corpo. Quando nos deitamos ele me beija pela primeira vez, e sua boca tem gosto de pasta de dente, a minha, provavelmente, de cerveja. Ele rapidamente tira a camiseta que eu havia acabado de colocar. E nada é dito, enquanto ele beija meu corpo e é só aí que eu esqueço que minha mente se comporta como uma colméia em caos.

Enquanto minhas pernas estão entrelaçadas em sua cintura e ele coloca a camisinha, olhando para meu rosto, iluminado pela luz que irradia da janela, eu respiro fundo e fecho os olhos. Seu pau é a droga que faz minha mente sair de sintonia, onde uma tela preta se instala entre eu e meus pensamentos, minhas agonias e angústias e essa vontade visceral de apenas ter algo real nas mãos. Eu quase esqueço quem sou entre os gemidos e as mãos que passeiam entre curvas cabelos, barba, boca. Talvez minha psicóloga tenha razão, eu uso o sexo como válvula de escape. O sexo é intenso e rápido, gozar ou transcender não estava nas expectativas de qualquer forma. Mas minha pele está vermelha e minha mente se acalma.

A putaria logo me faz dormir, mais tranquila. Eu chego a não ter nem pesadelos.

Acordo no outro dia antes dele. Faz um baita Sol lá fora e ele ronca baixinho, apoiando a cabeça em uma das mãos. Me levanto, tomo uma água, me visto e o acordo: dia cheio, preciso ir pra casa. Ele me leva, sonolento até a porta, nos despedimos com um selinho e eu caminho até o metrô. Não sentindo nada, essa falta do sentir quase machuca, quase perfura, mas não chega a tanto. Não sangra, não dói. Só incomoda, é quase um câimbra dos sentidos. Não há música triste de fundo, não há dores para sanar. Só uma ressaca, uma sede, uma fome que não são apenas literais.

Você adora mulheres louca, não é? Dançando despreocupadamente, na pista de dança, com as mãos no quadril, enquanto riem umas para as outras, gritando: “amiga, eu adoro essa música!”. Você adora mulheres que gostam de uma cerveja em um boteco, mulheres sem frescura, que topam de tudo. Que têm assunto para varar a noite naquelas cadeiras de plástico, com aquela cerveja barata, quando o assunto rende e segue suavemente feito nuvens do céu e o próprio céu que se transforma em milhares de tons de azul escuro até clarear gentilmente e ter sua escuridão partida pelos raios de Sol da manhã.

Você simplesmente ama essas mulheres. Mulheres de opinião, que dizem o que sentem, o que querem, o que odeiam. Que pensam, que querem algo maior da vida além da tediosa banalidade e que têm coragem de enfiar a mão mais fundo, porque não há nada mais chato que o superficial. Você simplesmente adora falar sobre o mundo, música, política, filmes e cultura, sobre a sociedade e religião, sobre arte… Falando em arte, você não adora as artistas? As mulheres que escrevem, pintam, e desenham, aquelas que tocam e cantam, que declamam suas poesias ou escrevem timidamente em seus quartos. Mulheres livres, você uma vez disse, mulheres loucas que são verdadeiras. Que sabem se defender, que não respondem a ninguém. Mulheres que parecem um conceito de um filme, aquele tipo artístico, engraçada, complexo, cabelo colorido, tatuagens e personalidade transbordando pra fora. Aquela que vira o rosto para você e num sorriso, te faz ter uma outra percepção de vida, porque elas, sim, seriam alguma coisa como um oráculo, um altar, um templo, uma reza.

Um orgasmo.

Talvez fossem melhores na cama, você pensou. Essa liberdade toda trazia menos timidez, mais desenvoltura. Não existe medo, né? De tentar coisas novas, Esse calor da pele, que chega queimar quando toca, e toda a disponibilidade de não pensar duas vezes antes de fazer algo porque quer. A liberdade que parece ter sido escrita em um livro, a personagem que só existe para libertar o mocinho. Você, um personagem que deveria ser salvo, conhece uma mulher maluca pelas ruas do centro e têm a vida transformada porque ela sabe dizer a coisa certa. E na cama? Ela tem experiência, ela não nega nada, e ela quis cuidar de você.

Você disse que elas são um tesão. Você queria uma mulher de verdade. Uma mulher de verdade do tipo que te olha nos olhos e sorri, fuma um cigarro depois da transa e diz que você é bom demais nisso.

Mas não pra sempre.

Você quis a salvação, o caldo doce da fruta. Você quis dançar com elas nas festas, entrar no meio de seus beijos e talvez, até ler suas histórias, seus poemas, não toda a obra. Você quis a noite de bar, as qualidades que emanam dos poros, as primeiras boas impressões. Primeiras boas impressões, era isso que você queria, nada tão importante, mais como um prólogo de um livro bom pra caramba. Um livro denso pra caramba, longo. Se você ao menos puder catar tudo de bom que ela te oferecer nesse primeiro e único encontro…

Mas você adora mulheres loucas. Essa loucura sexy que te impulsiona a ser um homem melhor, um homem mais culto, mais experiente. Você curte essa selvageria que você nunca pôde domar, não que você tenha tentado e não que seja possível, talvez você não durasse duas semanas. Talvez seja muito para lidar, muito para entender. Você entendeu do jeito que quis: um tesão. Do mesmo jeito que você achou aquelas duas mulheres se beijando no meio da festa. A mulher que se senta com você no boteco e que vem para a sua casa, transar no primeiro encontro. Essas coisas modernas. Essas mulheres que parecem sair de um filme, sabe? Existe alguma coisa de força ou complexidade, algo que você não pôde tocar completamente e que te atraiu, mas você não soube o porquê.

Você disse que gostava de mulheres de verdade, mulheres livres…

Talvez não por muito tempo, só uma noite, a cada quinze semanas. Algumas horas, até a hora do metrô abrir, até a loucura continuar, até a droga continuar fazendo efeito, até que você goze. Até que não seja real demais, sincero demais, profundo demais.

Não que você separe mulheres para transar e casar, é só que você acha mais fácil manter o relacionamento com a sua namorada da adolescência, daquela cidadezinha do interior. É só mais fácil de entender. É mais tangível. Não existem tantas camadas e medos de dizer a coisa errada, de agir de forma equivocada. Você prefere que a mulher ao seu lado concorde com o que você diz, e como age. Você quer que ela te ache tão inteligente, talvez até saia com meninas mais novas. Não é melhor? quando te olham com esse vislumbre de admiração e quando elas pensam: “ele é tão interessante, e curte filmes cults como Clube da Luta e aqueles do Tarantino!”. Você não quer correr o risco de ser um babaca, é melhor não se aproximar demais, não conhecer demais, e só lavar os pés. Você ama, mulheres modernas, mas talvez não dê conta. Talvez não acompanhe o papo que segue com as transformações da noite, talvez o seu papo não dure tantas noites, não sobreviva ao boteco, e seus passos na pista de dança sejam ensaiados demais. Talvez elas notem, talvez olhem para a insegurança escondida embaixo da pele, o ego frágil que soa pelos poros, o sexo breve e triste. Quem sabe elas não estejam rindo de você? Melhor ficar seguro, nas bordas, onde a água toca só os joelhos, nada tão profundo, você quer ter o controle.

Parecia mais um personagem de um filme, né? Essas mulheres malucas, cheias de questões e opiniões, cuja beleza você não soube muito bem explicar, mas estava ali. Um filme cujo mocinha é transformado por essas mulheres. Excêntricas. Exóticas. Livres. Difíceis. Malucas.

Suas histórias tristes talvez não te interessem talvez sejam tristes demais, suas opiniões muito profundas ou talvez você apenas não consiga acompanhar. Você queria ser salvo, sem ter que investir muito, sem ter que doar muito, sem absorver demais. Quase uma terapeuta, quase uma messias. Você adora mulheres loucas, o conceito, a desenvoltura, a complexidade, mas jura sentir um alívio quando elas vão embora pela manhã.

Lembro que já estive aqui antes. Dancei por essas ruas, onde chão mais parecia um céu estrelado, cujas cores e o fedor misturavam-se de forma sinestésica. A música alta me embalava o corpo e me tirava pra dançar, e as máscaras e as bebidas, escondiam o outro, levando-nos em uma espécie de histeria coletiva, a mente em um vendaval.

Seguramos mãos estranhas e sorrimos por longas horas, até cair em braços suados, até que o céu fosse tomado por nuvens, e a chuva de verão dispersasse o bloco. A chuva rápida, que vem pra refrescar e lavar todo o glitter do corpo, borrando a maquiagem, um corpo se esfrega no outro e o calor não se dissipa, mas aumenta. Com sorte, olhos se cruzam, e tudo bem, só olhar para a superfície, estes nunca foram dias de profundidades. Desprenda-se disso, os lábios são macios, a música faz vibrar até o estômago.

O vento não tem poder aqui, enquanto um é quase o outro, e existe um alegria instantânea que não vêm da bala misturada da cerveja. Você se batiza em um mar de felicidade, e entra para uma religião temporária, estendendo as mãos para o céu de olhos fechados, a multidão canta em uníssono.

Eu dancei por essas ruas, a gente abriu o corpo querendo ser esponja e absorver tanta alegria, levar um pouco para a casa, espalhar na cama, feito o glitter que não sai da gente mesmo semanas depois a festa. Você me viu? Um cigarro na mão e uma lata de cerveja meio quente na outra, tentando fingir que eu sei sambar? Mas eu vi você, minhas coxas brilhavam de suor, seus olhos estavam vermelhos, da cor do glitter espalhado por meu colo. Não há nada de errado na falta de profundidade, a gente precisa respirar, meu bem. Tudo é tão sério e tão horrível, eu quero pisotear nesses medos, por entre os blocos do centro.

Não faz mal que chova um pouco, só um pouco, e que nossos lábios fiquem dormentes durante um beijo com o gosto da última bebida que você tomou. Você tentou, não tentou? Se batizar em mim, mergulhar no corpo, no suor salgado, na animação com data de validade? Mas andamos com o bloco e você me encochou no meio da avenida. Já anoitecia, e eu respirei fundo, olhando pra lua cheia no céu e depois olhei para o céu aos meus pés e senti sua respiração no meu pescoço, quase que tatuando seu dna em minha tez, e eu pensei que o tesão misturado com a alegria me fazia quase pegar fogo por dentro, não só entre as pernas, mas no corpo todo. Eu quis explodir feito fogos de artificio, feito as ondas sonoras que estrondavam da caixa do trio, feito o chão que eu senti vibrar.

Mas eu já estive aqui antes, tentei catar tudo que pude dessa alegria finita, e o fim brilhava no horizonte bem a frente, na próxima esquina onde a multidão seguia. O fim não estava próximo, mas eu já podia sentir seu gosto metálico na boca. Foi bom, não foi? Se iludir por um pequeno momento, pensar que a vida era isso: suor na testa, a música repetida em coro. Os quadris serpenteiam o ar pela avenida e os olhares se cruzam de maneira fugaz.

A íris brilha e você chamou isso de mágica, mas eu já tinha meus pés no chão. Meu bem, eu não consigo evitar de ser um pouco pessimista, mas eu estarei lá de novo. Pisoteando meus anseios e tentando matar alguma questão não resolvida aqui dentro, até que meus pés não aguentem mais. Eu vou sentir seu corpo contra o meu, suas mãos passearem por minhas curvas, como quem faz o trajeto de mais um bloco. Na curva do meu pescoço, há angústias espalhadas, que eu não consegui deixar em casa. Misturadas com glitter, sua língua molhada vem anunciando que tem gosto de carnaval.

Cai logo pra dentro. Levanto a cara e abro a boca, tentando engolir os pingos grossos da chuva. Me desespero um pouco, me vendo sozinha na rua vazia, as pessoas estão dentro de suas casas, esperando a tempestade passar. Eu não quero ter medo de me molhar, ou estragar minhas velhas botas e a maquiagem que agora está borrada.

Sinto que minha consolação é a coragem de ter tentado ainda que nunca de em nada ou que o esforço não pague no final, eu me vejo sozinha na chuva.

Cai logo pra dentro. Essa gana de sentir na pele, a intensidade de apenas querer estar viva, ainda que viver seja bem diferente de apenas existir. Meus olhos ardem com mais uma gota d’água que se mistura com o rímel e irrita minha retina. É tarde demais, eu já estou ensopada, tarde demais para se ponderar se eu deveria ter deixado o guarda-chuva em casa e a velha prudência entediante de antes. Tarde demais para me perguntar se eu deveria ter deixado encostar bem na carne, além da pele, onde mais arde, onde a água bate, e a ferida sente. Tarde demais para fingir que me arrependo.

Não quero me arrepender. Não quero caminhar na rua olhando para trás, me abraçando de frio, me sentindo uma criança boba, emocionada pelo primeiro banho de chuva. A água não faz milagres, a sujeira sempre acaba indo para outro lugar, escondida nos esgotos e empilhada nas poças que se formam no meio da rua. A água não faz milagres, mas eu ainda fecho os olhos, feliz por ter me deixado sentir algo ainda que a brisa gelada faça minha pele urrar em arrepios. Essa não é uma chuva de verão.

Cai logo pra dentro. Essa eterna desilusão com a realidade, nada saiu como eu esperava e eu encontro um conforto nisso, caminhando na rua, esperando que a enxurrada não me leve, mas eu não quero ir contra a corrente, não mais. A chuva é intensa, as árvores quase sucumbem ao vento, o barulho do vendaval chorando sussurros desconexos para mim, e eu apenas quero sorrir pra essa força. Me lembro de quando eu era criança, brincando no quintal de casa, achei graça enfiar minha perna num formigueiro, na pequena moita perto da porta da cozinha. Chorei quando as formigas subiram na perna, picando seu caminho acima, a gente faz essas coisas idiotas pra experimentar, pra sentir como é o barato; e minha mãe veio correndo me acudir, perguntando o motivo de eu ter feito isso. A gente não sabe o motivo pelo que faz nada, a gente só faz. A gente só vive porque quer sentir o que é estar vivo, cai pra dentro essa vontade de me arriscar novamente, por amor, por realização, para me colocar no mundo ainda que o vento abafe mais um grito que escorrega de minha garganta.

Não há pássaros na chuva, nem as pombas sujas da rua, nem os ratos que caminho pela sarjeta. Não há paz virando a esquina, eu não quero ter paz. Eu não quero a tristeza de ter paz, às custas do medo e da eterna pergunta do que seria. Cai logo pra dentro essa vontade de jogar nos braços do impossível ainda que eu dê de cara com o chão, do salto do precipício rumo às pedras na beira da praia. Vejo beleza na coragem da loucura, vejo beleza nas cicatrizes do meu corpo, no grito na hora da raiva, nas unhas cravadas nas costas da intensidade do gozo. Vejo beleza no desastre que se permitiu ser.

Cai logo pra dentro. Essa bagunça que eu sei que me tornei, minha personalidade forte, quase que insuportável, e as manias chatas, a sinceridade de cortar aquele ótimo e superficial clima. Cai logo pra dentro, na boca da alma, na garganta do estômago esse pingo de chuva gelada. Eu caminho no meio da rua, minhas ressalvas se desfazem, o açúcar que esconde o verdadeiro sabor das coisas, se desmancha na chuva. Não quero pensar duas vezes antes de dar o próximo passo, quero a coragem de ser quem eu sou, seja lá que porra isso signifique.

Me sentei, me sentindo estranha, em um canto da festa. Pensei que essas situações sociais não eram para mim. Eu me sentia ansiosa, batendo as unhas na borda da lata de cerveja quente. Me sentei, sentindo um peso nas costas, o odor do lugar me incomodava. Vislumbrei lembranças incômodas, embaladas pela música animada, o que fez tudo ficar bem pior, me vi então em um filme cult: luzes escuras, cores estranhas um misto de vermelho e roxo e verde, abraçados por uma neblina da fumaça dos tantos cigarros que ali queimavam.

Que me queimavam também.

Senti uma chama se acender em um pequeno canto do meu cérebro. Queimando tímida, irradiando seu pequeno calor e fervendo alguns neurônios cansados. Eu quis fugir da conversa, admito. Queria ficar quieta. Precisava de silêncio para pensar, mas então, tive medo de ir embora e me ver sozinha. Me ver sozinha e ver algo que eu não gostava em mim mesma. Guardei então, essas ânsias, bem dentro de minha traqueia, e as afoguei com mais um gole da cerveja, enterrando-as estômago abaixo, bem onde eu não poderia olhar.

Quis que meus órgãos fossem cúmplices de meu crime.

Esqueci que crise alguma vai embora numa festa.

Fechei os olhos e me balancei ao ritmo da música: para lá e pra cá, titubeando os dedos na lata de cerveja, balançando os pés. Minha mente se movia ao contrário, se rebelando contra a gravidade e indo para o lado oposto, contorcendo-se feito um peixe fora d’água, doido para respirar, vendo seus últimos minutos de vida, na tortura eterna do fim. A eternidade que dura alguns segundos. Mas eu queria sorrir, eu juro. Eu queria dançar e beijar, bem no meio da pista de dança, eu queria ser o próprio carnaval tamanha alegria, mas me sentia feito Quarta-Feira de Cinzas, a ressaca antes mesmo do primeiro gole de álcool.

Esses pensamentos não levam a nada. Para lá e pra cá, tentando entrar no clima, tentando fazer parte do ritual, da dança, do grupo. Tentando me enturmar, ainda que eu me sentisse em uma outra frequência, onde eu não pudesse ser ouvida. Uma outra realidade enxergada através de um vidro. Eu sou espectadora aqui.

Sinto a pele pulsar de agonia, esperando as horas se dobrarem e o dia amanhecer. Esperando que seja apenas a cerveja que não bateu bem, me debatendo junto com os ponteiros do relógio. Sentada em um canto da festa, observando as gargalhadas pairarem pelo ar, feito pássaros pousando nos fios do poste da rua, querendo tocar os próprios fios, e absorver a eletricidade de toda a empolgação.

Me vejo em outro mundo, eu sou de outro mundo: meu planeta está depois de Plutão, tão distante do Sol e do calor dessas coisas corriqueiras.

Acendo um cigarro para me distrair e a fumaça dele se enturma com a outra que já pairava ali. Me sinto invejosa, uma bolha de ressentimentos que eu só destinarei a mim mesma. Meus olhos se fecham, e eu vejo o nada, vejo tudo, vejo o que não queria lembrar, meus pensamentos me enganam, minha mente está tramando contra mim. É só uma bad, é mais que isso. Porra, você vai acabar explodindo assim, menina.

Vai com calma.

Segura a onda, eu lembro de um amigo dizendo. Segura a onda, a bad vai passar. Tudo passa, mas eu ainda penso no peixe se contorcendo fora d’água, pensando na eternidade finita do seu pequeno gigantesco tormento. Guardo certos pensamentos para mim, tento afogá-los de novo com cerveja, tento sufocá-los com o cigarro. Sinto meu corpo se retraindo contra si mesmo. As células de fora, as células da pele, agora querem voltar-se para dentro, escondidas, dentro da casca. Meu corpo é seu refúgio e eu sou aquela que fica para trás.

Penso em amores passados, penso em amizades perdidas, penso nas esperanças que morreram no caminho, padeceram de sede, enquanto eu cruzei esse deserto por anos. Penso nos mistérios dos céus, e do fundo do mar, no sal das lágrimas e do suor, me vejo mergulhando em mim. Embaladas agora por uma música meio agitada, aquele eletrônico triste, feito para agradar pessoas como eu.

Um cruzar de pernas e o olhar desinteressado, disfarçando certas tristezas com tédio, olhando a vida por esse espelho, esperando que os sentidos possam finalmente abraçá-la. Cruzando pela noite meu deserto, procurando o oásis de uma vida despreocupada, de uma noite tranquila. Penso que esperarei o próximo DJ para me levantar e sigo esperando, enquanto a vida passa.

Que eu consiga me perdoar, assim como perdoo os crimes daqueles que não me enxergaram ou respeitaram qualquer coisa que eu senti. Me perdoar completamente, como quando meu próprio amor por mim mesma não foi recíproco, um amor unilateral que não atravessou o reflexo do espelho. Que eu consiga me perdoar, pelo ódio que distribuí em mim mesma. 

Que eu consiga me amar. Essa é a parte mais difícil, me amar e respeitar meu tempo, meus limites. Não, não você não precisa de certas coisas para ser mais valiosa. Repetirei um mantra na frente do espelho do banheiro, embaçado pelo vapor de um banho quente, escaldante que leva embora todas as células mortas e as dúvidas sobre meu valor. Que grite em voz alta dentro do meu próprio cérebro quando eu me ver em uma situação de risco, quando alguém não parecer bom para mim. Nem toda forma de toque é afeto, nem todo mundo faz bem para você. Que eu me perdoe pelas vezes em coloquei meu corpo em risco ou vida em risco apenas para provar que eu podia sentir algo: 

Não é querer estar mais viva se te machucará mais tarde.

Que eu encascore a pele. Que eu tenha orgulho da mulher que eu sou, na frente dos amigos, de homens, da família e também… Na ausência de todos eles. Que eu entenda meu eu todo como uma beleza imperfeita, meu corpo como uma máquina e meu cérebro como um órgão que já mais foram vilões de nada, mas eternos amantes que estarão ao meu lado ainda que a solidão vocalize seu grito mais agudo. 

Que a crueldade do mundo não seja o reflexo para quem eu sou. Que a fragilidade com que me enxergam não impeça de meu emocional crescer forte e saudável, ainda que o mundo espere que eu falhe, ainda que eu falhe, ainda que tudo dê errado, eu espero essa sensação de satisfação percorra meu corpo como o próprio sangue nas veias, batizando cada artéria e abraçando, quente, meu coração no final. 

Que eu consiga me perdoar, e me desfazer da culpa como uma roupa velha, ainda que eu tente a acumulá-la em um cesto no canto da mente: está na hora de limpar a bagunça.

Que eu saiba que sou merecedora de amor, gentileza, respeito e dignidade e que não preciso implorar por nada disso. Que eu nunca me esqueça disso. 

Que eu ame meu corpo, mesmo se outros não amarem. Eles todos irão embora e no silêncio da noite, eu o abraçarei, quente, e ficaremos, sozinhos, envoltos apenas pela escuridão dos céus e uma faísca solitária de alguma estrela que mal consegue brilhar.

Que minha beleza inunde a casa, os recintos que eu entre porque eu não a quero conter dentro de mim. Que eu sempre lute pelo que eu acredito, mas que principalmente, eu acredite em mim mesma. 

Que a mulher que eu sou e que ainda ei de me transformar, não seja quebrada por aqueles cujos egos são frágeis. Que eu não me quebre por eles, ou por quem insiste em dizer que mereço menos seja lá o que for. Quero conservar esse sentimento bom de eterna cura, ainda que eu renasça incontáveis vezes e eu jamais me esqueça que resistir é viver em harmonia nesta pele, que é a vida que me veste.

Saí do metrô correndo, a chuva era torrencial e eu não possuía um guarda-chuva. Pensei em fumar um cigarro enquanto subia sentido a Consolação, mas ele molharia todo. Parei sob o toldo de um boteco podre, logo na esquina da Sete de Abril.

Me sentia um lixo, especialmente naquele dia, eu sentia que as coisas não estavam dando certo de forma alguma, sabe? Sempre me senti meio lixo, meio podre, mas naquele dia… Faltava cair aos pedaços de tão apodrecida por dentro. Como se as pessoas ao meu redor pudessem sentir, pudessem cheirar o cheiro putrefato vindo de minhas entranhas. Como se eu tivesse o toque de Midas ao contrário, transformasse em merda tudo que toco. E chovia, bem naquele dia. Eu não gosto de chuva, particularmente. Quer dizer, a chuva é importante, mas dias chuvosos apenas me dão a impressão de que lavarão toda essa máscara de tranquilidade que eu visto pela manhã. Essa roupagem de: tudo vai ficar bem, olhe pelo lado positivo. Eu até tento, mas no fim eu só finjo para as pessoas, quando eu já deixei de acreditar nisso há um tempo. Eu até dou conselhos para meus amigos: pense pelo lado positivo, querido. No fim das contas a merda emergirá à superfície, com seus raios de má noticias e seu cheiro característico.

Sabe, quando anoitece no centro, eu me sinto solitária. De leste a oeste consigo lembrar onde moram os homens que eu gostei e/ou transei; amigos que eu conversava e já não encontro mais. Sorrisos que eu dei e que já não brilham neste caos. Largo do Arouche, Praça Roosevelt, Cesário, Bar do China… Aquele Ben Hur do lado do Anhangabaú. Eu já estive com pessoas queridas nestes lugares, mas agora sozinha, sinto uma nostalgia danada. Eu sou das que enfiam significado em tudo, sinto demais até que o sentimento tome conta de meu próprio corpo. Até que eu própria suma e apenas o sentimento reste.

Acendi um cigarro, você sabe que fumar na umidade é um saco. Mas este é um vício que eu particularmente gosto. E não sinto vontade de largar. Droga alguma me tomou e me abraçou como  o cigarro, que me permitia expressar prazer, desconforto e distração. Então mesmo em uma chuva desgraçada como essas, eu fumo. Droga, não lembrei do guarda-chuva. São Paulo é bonita na chuva, porque a chuva esvazia os lugares, faz brilhar o asfalto, cai contra a luz do poste e o farol dos carros… Vendo isso, eu esboço um sorriso. Mas logo ele se dissipa, pois, por esvaziar lugares, faz eu me sentir meio solitária. Meio estranha. As pessoas estão em suas casas, com um nível de satisfação um pouquinho maior que o meu. A solidão cresce a ponto de ser maior que eu própria, a sensação de que a vida de todos segue, é tão forte que eu mal posso evita-la, embora eu saiba que é mentira.

Debaixo daquele toldo, eu vejo pessoas indo e vindo. Será que elas conseguem sentir essa tristeza vindo de mim? Será que elas me acham perdida? Uma mulher chama a minha atenção com seu guarda-chuva amarelo. Ela me olha e sorri, me parece alegre e simpática, e eu a invejo. Ela é bonita, tranquila, em meia a chuva. Daquele tipo de felicidade onde se é capaz de sorrir para estranhos… Eu gosto de gente feliz, que esbanja alegria em locais públicos, privadamente, tantas emoções assim, esmagam a gente por dentro. Eu juro, dia desses eu ainda vou ter coragem de sorrir e chorar em público.

Meu cigarro ainda duraria por mais duas ou três tragadas. Gostaria de evaporar junto à fumaça. Mas meus pensamentos me queimam como sua brasa, e eu permaneço largada, como a própria bituca, que jogo no chão e corro em meio a chuva.

Esses devaneios não me levam a nada.

Rezo ao tempo, deus soberano que nos lembra que o fim
é o único vislumbre que teremos da eternidade.
Rezo ao ano que passou, mas que jamais morrerá na memória
daqueles cuja pele encascorou pelo atrito.
E as bombas de gás lacrimogêneo.
Sinto a alma amargurada, não por mim,
mas a chaga coletiva que cresce embora
saibamos que o tempo nunca volta atrás.
E disseram que agora voltamos para décadas passadas…
O tempo aparece para revelar uma cruel verdade:
a história é cíclica, mas ele seguirá em frente,
nos arrastando junto com o passar das horas, e dos dias…
Nos afastando cada vez mais do ano que passou
ainda que o som do metal de suas correntes
ecoem pelos ares e então, verdade seja dita:
não é aqui que morre 2018.
Tatuado em nossa pele como uma dor coletiva,
e que vontade de chorar!
Caminharei pelos espaços no assombro de que não estamos seguros.
Abraçarei meus amigos e prometo não paralisar em nome da injustiça.
Rezo ao tempo, deus inconsciente de si mesmo
que apenas nos tira e nos toma.
Onde a morte, ironicamente, simboliza o pequeno precioso presente
que temos.
Mas a morte está mais próxima de uns que de outros,
os rodeando como a brisa gélida
de um inverno inevitável,
soprando em nossos corpos trêmulos os fantasmas do passado.
A morte que visita a quem luta pelo que acredita.
Então o tempo, em mais um truque,
nos crava na memória aqueles cujos nomes
não podemos nos dar o luxo de esquecer:
Marielle morreu pelo que acreditava;
Bolsonaro, pelo ódio, subiu ao poder.
Soberano tempo,
que não se divide pela volta que a Terra faz em torno do Sol,
a vida é a mesma, as dores também,
se a chaga dói mais em alguns,
quero nunca conseguir virar a cara,
ainda que a ignorância me pareça menos dolorosa
e hoje, eu duvide que seja uma benção,
quando a dor de alguns, é uma ferida toda nossa.
2018 que, eu gostaria de deixar numa vala,
sussurrará os nomes daqueles mortos pela polícia,
e de quem foi assassinado na Paulista,
segurando a mão do homem que amava.
Poderoso tempo, aqui estamos a sua mercê,
o passar das horas, e a permanência das opressões
quando a História permanece a mesma
o que você poderia fazer?
Rezo ao tempo que nos dê força
para olhar para o trás e se inspirar
em quem lutou por um tempo melhor,
em quem amou tanto que precisou ter ódio,
em quem resiste por ser quem é.
Onde o tempo nada apaga, mas segue.
e na rua gritaremos seus nomes, nos livros leremos suas histórias
e não arredaremos os pés dos espaços!
2018 agora abraça outros anos
esperando jamais ser esquecido, mas lembrado
sussurra baixo, inaudível ao som da música,
das bombas, e da porra do Hino Nacional
sussurra até entre os discursos dos fascistas
entre Mourões, Dórias e Bolsonaros
o que o tempo nunca nos fará esquecer, sussurra delicado:
porque a luta se faz presente quando na memória há o passado.

Chovia. Era uma chuva de verão intensa, refrescante e barulhenta. Coloquei um som enquanto pegava a cerveja gelada da geladeira, e dei uma bela golada. Senti o liquido limpando tudo enquanto dançava até meu estômago e me refrescava completamente. A chuva não dava trégua, seu barulho alto ofuscava a música do rádio, que não tinha chances contra o vendaval.

Observei minha casa, silenciosa. As paredes brancas, meio sujas, os móveis e os eletrodomésticos antigos. A goteira no meio da cozinha que ritmica, fazia um barulho ao cair dentro do balde rosa. A mesa da cozinha, meio bamba e suja, cheio de farelos de pão e sujeiras das refeições anteriores. O chão estava sujo, há tempos eu não fazia uma faxina, nem queria. A casa estava podre. Os móveis empoeirados e a cama bagunçada. Já eram quase cinco da tarde e logo eu não estaria sozinha.

Eu acho que subestimei a solidão. Intui, muito cedo, que seria um dos piores sentimentos que eu poderia ter. Fiz de tudo para não estar sozinha: grudei em péssimos amigos para não estar sozinha, frequentei festas horríveis apenas para me sentir acompanhada e me joguei em relacionamentos ruins, urgindo que a solidão não me achasse. Só quando não me vi sozinha mais, entendi o valor da tranquilidade de mim mesma e só. Hoje em dia a solidão era um luxo, que eu jamais poderia ter.

Em cima da estante, havia uma foto do meu casamento. Minha cara alegre, e o sorriso genuíno, inocente. Meu vestido branco de segunda mão e o buquê de rosas vermelhas nas mãos. Meu marido ao meu lado, sorri timidamente com a mão na minha cintura. Ele olha para mim, com o olhar terno. Já eu, olho para a câmera: olha só, eu consegui! Não serei sozinha nunca mais!

Não serei sozinha nunca mais…

“Cuidado com o que deseja.”, minha mãe gostava muito de repetir esse ditado. Tão certo quanto a vida se tornara o oposto daquela foto. A chuva agora se torna mais violenta, trovões estrondam lá fora e um clarão invade a janela. A solidão pode ser bonita, eu admito que estive errada.

Ao lado da foto de casamento, uma foto nossa em um restaurante barato do centro da cidade. Comíamos uma pizza, o garçom gentil, se ofereceu para fotografar. Eu, de boca cheia, esboçava um sorriso tímido. Na mãos, o garfo e faca. Eu olho para câmera, meus olhos, esbanjam alegria. Ele, do outro lado da mesa, com uma cerveja nas mãos e um sorriso aberto, feliz. Essa foi antes do casamento. Ao lado uma foto de minha mãe, antes de falecer, o sorriso nos lábios não condizem com o sentimento dos olhos, mas era a última foto dela viva…

Me sento no sofá com a lata de cerveja nas mãos, a janela da sala está aberta e a cortina dança no ar, enquanto a chuva adentra a casa e vai molhando parcialmente o sofá, meus braços e o chão. Não me importo muito. A solidão está aqui, ao meu lado. Existe uma paz de espírito invadindo meu corpo, mais forte ainda que a cerveja que, rapidamente, vai esquentando. Meus olhos estão focados na foto em cima da TV: estamos na praia, eu estou de vestido branco longo e ele apenas de bermuda azul. Era réveillon, mas eu não pareço tão feliz. Meu sorriso é minúsculo, meu olhar está opaco, ele parece alegre, estava bêbado na hora da foto. Se notar bem, há um hematoma em meu braço esquerdo. O vestido longo não foi uma opção de moda, eu queria esconder certas coisas.

Ele insistiu que a foto era bonita:

“Você está linda! E olha como eu estou feliz ao seu lado. Vai ficar aqui na sala, pra você lembrar como a gente é feliz.”

Ano passado, e eu já sentia saudades de uma solidão da qual eu fugi minha vida toda. Olhe só para mim: vou até o quarto e no espelho grande, na parede, vejo meu reflexo triste. Estou com uma camisola fina, e curta. Meus braços e pernas estão machucados. Os hematomas nos braços são tantos, que já não saio sem mangas compridas. Meu olho está roxo, assim como o canto da boca. Meus lábios meio inchados. Eu pareço um fantasma do que era há alguns anos atrás. O personagem de um mundo paralelo da foto de casamento.

Olhando para o espelho, viro a lata de cerveja e a deixo em cima da cama que, agora com a chuva, está toda molhada.

Não me incomodo em fechar as janelas, nem de fazer o jantar. Pego as malas, e começo a jogar minhas roupas dentro, sem nem dobrar. Os sapatos, as bijuterias, a maquiagem, os shampoos, a foto de minha mãe. Coloco apenas uma capa de chuva, amarela, que costumava ser de minha irmã. Coloco as botas e deixo todo o resto para trás.

Jogo as malas, no meu carro velho e, sem nem fechar as portas da casa, dirijo, rumo a qualquer lugar que não seja ali.

A chuva não pára, e se intensifica. Não demora muito e meu celular começa a tocar, sem parar. É ele. Não quero atender, não posso atender.

O celular agora ofusca o barulho maravilhoso da chuva, droga. Encosto o carro, não há ninguém na rua. Sei que é ele, querendo saber onde estou. “Não vou mais voltar” é o que eu digo, com um alívio tão grande que sinto meu corpo todo estremecer. Olha só você, sendo corajosa pela primeira vez na vida. Vamos, manda ele se foder, joga esse celular pela janela.

Você não merece isso. Aquela foto lá é uma mentira.

Ele diz que me ama. “Não sei viver sem você, neguinha.” Ele faz uma voz de choro. Ele parece desolado. Eu o escuto fechando as janelas, enquanto respira fundo. Aposto que está desesperado. Lembro de minha mãe, já em seus últimos dias no hospital, sorrindo quando me via e depois, seu sorriso morreu quando viu um roxo em meu braço. “Um homem quando descobre que pode pisar em você, jamais sairá de cima e não vai te deixar partir.” Minha mãe morreu de cirrose. Dizia que não se arrependia, ela ria no hospital, brincando que o álcool e a solidão lhe deram mais que qualquer homem podia dar.

Eu também não sabia viver sem ele, eu admito, no telefone. Ouço sua voz ficar mais animada. “Vem pra casa, tudo vai ser diferente.” A chuva aumenta e eu dou uma risada. “Eu não sei viver sem você, mas eu quero aprender, eu juro.” Jogo o celular em uma poça d’água.

O temporal agora desaparece. Minha mãe parece estar ali comigo, seu perfume invade o carro e uma memória do seu abraço me envolve o corpo, cicatrizando feridas que eu nem sabia que tinha.

É uma noite quente de verão, algumas estrelas se esforçam muito para aparecer no céu e você até consegue contar algumas. Como o glitter que prega na roupa depois de um baile de carnaval. Aliás, já é quase carnaval e a festa começa a borbulhar na panela com todas os fogos e cores e a alegria, os sorrisos, embora em um lugar ou outro você sinta um velho desconforto. Você não conseguiu jamais batizar-se neste rio de felicidades, neste mar de contentamento. Uma vez, você se pegou chorando durante uma cagada e, sentado na privada, sentiu algo rasgando no peito. Você costumou-se a afogar esses sentimentos na bebida, no sexo e nas drogas, ainda que não surtisse efeito, você apenas achou que valia a pena tentar.

Você não sente? Formigando na pele, coçando feito uma urticária. Mas você parou com a hipocrisia, admitiu certas falhas e o que falta em você e admitir é o primeiro passo. A questão é para onde. Você foi o andarilho sem rumo de sua própria vida, andando em círculos, perseguindo o próprio rabo e apenas cometendo os mesmos erros de novo e de novo. Talvez fosse uma condição intrínseca do ser humano. Mas por quê algumas pessoas parecem sempre estarem melhores que você? Talvez elas finjam muito bem, talvez só sejam melhores mesmo, ou mais maduras. Você sentiu que de alguma forma, era um fantasma assombrando todos os espaços que ocupava, todos as festas e rodas de amigos, bares e consultórios. Assombrando a realidade sem assustar a ninguém, sem ser notado, um sopro no ombro de alguém e só, você estava em outra realidade e portanto, mal conseguia tocar aqueles ao seu redor.

Esse desconforto… Tem dias que vai lhe comer vivo, um parasita vivendo dentro da sua mente se alimentando de tudo que é sentimento bom. Aposto que você se sente novo demais para sentir essas coisas, ainda que essas coisas não tenham idade. Você só é mais sensível…

Olha a casa, o quarto, as paredes sujas e o tédio de uma noite insone e você gostaria de algo intenso e profundo o suficiente para te arrebatar das garras da mesmice. Com frequência, você pensou que merecia ser salvo: um arrebatamento particular. Ta aí, o nome desse texto: você ainda pensa que merece ir para o céu, mesmo que não acredite em Deus. Bom, mas se Deus existir, ele vai conseguir viver com a sua descrença, mas não acreditar em si mesmo… Você conseguiria suportar? Honestamente, você sente que falhou consigo. Você não cuidou do seu corpo, sentimentos, mente. Você meio que foi abusivo para si mesmo, mas ainda procura outras pessoas para culpar. A culpa é uma roupa que só veste melhor os outros.

Mas é uma noite de verão, você senta no banco da praça e acende um cigarro, talvez, beba uma cerveja enquanto sente aquele cheiro do bueiro que está próximo, misturado com o aroma de Damas-da-noite. Incrivelmente, não é desagradável! Esse desconforto tem te seguido a vida toda, será que você não pensou que merecia mais do que merecia de fato? Quer dizer, a gente passa uma vida querendo o que não tem, ou se esforça pouco, olha, não fique para baixo, a vida só piora daqui para frente. O que a gente tem que fazer é encascorar a pele, e você sabe que uma pele calejada só vem depois de muito atrito e dor.  Você pensou que precisava de maturidade emocional e um carinho no rosto. A leve brisa toca sua face gentilmente, realizando um pequeno pedido. Não vá se acostumar, o buraco é mais embaixo.

Fato é que já é fim de ano, e essa época sempre te deixa se sentindo meio bosta. Tem alguma coisa no ar das festividades que faz você lembrar de cada merda que você fez no passado. Se ao menos você pudesse se perdoar, aliviar-se do peso que carrega nas costas, como um mártir de ninguém e nem de você mesmo, um herói jamais reconhecido por façanha alguma além de sofrer pelo que nem aconteceu, mas a ansiedade foi seu calvário e você se pregou em uma cruz. Ah, eles dizem que se amar é fácil. Gostar de si e abraçar seu próprio corpo como o se fosse sua alma gêmea. Mas seu corpo e sua essência são amantes a sua eterna espera. Irão esperar você retornar da guerra consigo mesmo, para que então possa distribuir afeto pela pele e mente, envolvendo todos os órgãos, em um beijo caloroso e um abraço apertado.

O barulho das árvores dançando junto ao vento te levitam e te levam de encontro a melancolia, sua velha amiga. Você pensa que merecia mais de você mesmo e promete mudar no próximo ano, ainda que você tenha a tendência de se esforçar muito pouco em tudo que você se propôs a fazer. Se ao menos alguém te olhasse nos olhos e sussurrasse bem baixo, com a voz aveludada: tá tudo bem.

Será que você acreditaria?

Talvez, você realmente seja sensível demais neste mundo áspero e amargo, talvez você se sinta como as rosas cujas hastes são cortadas todos os dias em um jardim. Talvez você seja isso, uma metáfora brega e (meio que) verdadeira. Esse desconforto segue ao seu lado como um fantasma, de alguma forma você sabe que ele jamais irá embora, você sabe que está em algum limbo. Nem ele nem você serão arrebatados nesta noite, ou noite alguma. A realidade te arranha a pele, pedindo que você a enxergue. Aqui estão todos: a solidão, o desconforto, a realidade, e você, caçando estrelas que já não existem mais.

As duas adentraram na festa, cumprimentaram a todos (ou quase todos), pegaram uma cerveja e sentaram-se no sofá, de canto. A festa estava cheia para o apartamento da anfitriã. Muitos rostos desconhecidos, muita gritaria e gargalhadas pairando no ar, junto do cheiro de cigarro e de maconha. Havia uma pequena neblina no apartamento e todos os rostos estavam sorridentes, no meio da sala, um homem e uma menina dançavam rockabilly estilo Jack Kerouac em On the road. Estavam em silêncio, haviam brigado no caminho para cá, e mal se olhavam na cara.
- Me empresta o isqueiro?
- Tó. - Juliana fez que não falaria mais nada, mas pensou melhor, daria o braço a torcer. - Você tem certeza que está em clima de festa?
- Eu não. Mas eu não quero ficar em casa, olhando pras paredes. O barulho ajuda a mente não pensar mais no problema.
- Esquece esse climão, pelo menos vamos tentar se divertir.
Larissa escorou a cabeça com a mão esquerda, com uma cara de dó, enquanto observava o céu escuro da vista da varanda. Pequenas estrelas brilhavam entre as janelas dos prédios e o céu era um pano negro que cobria São Paulo. Andava meio deprimida, e fazia mais de uma semana que não saída de casa, Juliana a arrastara para lá, para tentar melhorar o humor. Bom, era óbvio que não estava adiantando: não é divertido se divertir quando não se consegue se divertir. Ao seu lado, a amiga balançava timidamente os ombros ao som da música e sua franja balançava de um lado para o outro.
- Se você quiser ir embora, a gente vai, tá bom? Mas quem sabe não ajude mesmo. Dançar é bom para essas coisas.
Por “essas coisas” Juliana queria dizer a fase letárgica que ela estava tendo por esses dias. Ninguém ousava dizer a palavra certa: depressão. Talvez chamar a coisa como ela é, faça com que a coisa seja menos potente, seja opaca diante da realidade. Ela pensava que só precisava aguentar algumas horas, não beberia muito, não usaria outras drogas, talvez tentasse absorver um pouco dessa alegria que pairava sob todas as outras pessoas da festa. Talvez a alegria adentrasse pelas narinas como cheiro da fumaça e assim como fumaça, impregnasse em suas roupas, cabelos e até na própria pele.
Claro, não queria ficar com essa cara de bunda a noite toda, então se esforçava também: mexia os pés com a batida do som, balançava a cabeça enquanto fechava os olhos. Pensou que o som das gargalhadas altas adentrando seus ouvidos, era um pouco agradável. Queria sentir tudo isso. Olhou à sua frente, dois homens se beijavam carinhosamente no meio da sala, bem no meio da pista de dança, bem na hora que as luzes se apagaram e foi ligado um jogo de luzes coloridos que fazia o beijo ter vários tons diferentes de cores primárias.
- Eu ainda me surpreendo com gente que consegue flertar em festas hoje em dia. - Juliana diz, olhando para os dois que dançavam e se beijavam sem cansar.
- Só a ideia de flertar no geral, já me dá preguiça.
- Acho que é porque a gente não está ali no meio.
- Eu sei que eu não sou do tipo que estaria ali no meio. Mas se estivesse não seria pra ficar com ninguém.
- E aquela fase sua? Você direto estava saindo “barra” transando com algum cara…
- Ju, olha essa bagunça toda. - ela apontou para si mesma. - E ainda envolver homem nisso… Não é uma boa. Acho que empapucei. A maioria dos caras são iguais essa festa: você sai esperando um momento de profunda diversão e intimidade e volta sem nada para casa.
- Bom, profunda intimidade e festa muito boa não é fácil de achar. A gente tem que ir em algumas festas ruins e encontros rasos para saber disso.
- Mas não está na cara? Eu sabia, quando saí de casa hoje que não deveria ir a lugar nenhum. Acho que preciso de coisas mais tangíveis, menos passageiras…
- Uma festa não é lugar para isso.
- Eles estão se divertindo.
- Eles não estão se sentindo como você ou estão fingindo muito bem, bicha.
- Você tem essas coisas? Sentir que a alma sua envelheceu demais e tudo isso, que nós jovens deveríamos aproveitar, simplesmente perde o sentido? Eu parei de sair com esses caras porque eu sempre me via voltando para casa meio vazia, e triste ou apenas entorpecida. As poucas vezes que algo ultrapassou a pele não durou mais que algumas semanas. Acho que quero honestidade.
- Você tem alma de artista. Artista tem essa coisa de buscar por algo profundo.
- Mas querer conexões humanas reais não é só coisa de artista.
- Não, mas artista geralmente consegue admitir isso.
- Bom, eu só sei que excluí o tinder.
Juliana se levantou para dançar, bem a frente de sua amiga. Ria enquanto rodopiava e mexia o quadril, ainda segurando a lata de cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Mal olhando para as outras pessoas da festa, ela constantemente fazia gestos para que Larissa levantasse do sofá, que negava o tempo inteiro, balançando negativamente, a cabeça. Vendo a amiga dançar, Larissa pensou que certas profundidades estavam agora longe de seu alcance. Todo o resto da festa ficou embaçado atrás da amiga que há dias tentava lhe animar seja lá como for. Sentia que certas urgências da juventude não mais lhe cabia, pelo menos, não neste momento, onde seu espírito parecia ser muito mais velho que o corpo. Como se tentasse, constantemente se encaixar em lugares que não foram feitos para ela. Ainda sim, sorriu ao olhar Juliana, alegre e disposta.
- Viu só? Você sorriu!
- Porque você é otária.
- Querida, certas profundidades estão aqui. - fez um gesto, apontando para as duas. - Acho que a gente quer muito o que a gente não tem. Mas eu sei lá, se o que a gente não tem é necessário.
- Acho que não é. A gente quer mesmo assim. Mas, você tem razão. Fodam-se as festas.
- E os homens.
- E o tinder.
- E a depressão.
- Vamo embora?
- Tem um boteco na esquina que fica aberto até as 3, o litrão é barato.
Certas profundidades estavam longe de seu alcance, outras estavam bem alí.

loading